A Irlanda é aqui! nossa guerra santa

Quando escolhido prefeito de Curitiba pela primeira vez, em 1971, Jaime Lerner revolucionou a cidade, todos sabem, com mudanças urbanas tão impressionantes pelo seu sentido precognitivo (prevendo o futuro), que ainda hoje estão ai, essenciais. O caso dos ônibus expressos, e as canaletas exclusivas pelas quais andam, eis bons exemplos. O chamado ‘sistema trinário’ de escoamento do tráfego (com as vias rápidas e as canaletas) também ganhou aprovação universal que frutifica até hoje, sem falar no BRT, o sistema rápido de transporte de Curitiba, adotado em 83 grandes cidades mundo afora.
A IRLANDA – 2
/Mas nem tudo foram flores nos primeiros dias de Lerner como prefeito. O grande jogo de xadrez, encomendado a Juarez Machado, com seus soldados, reis, castelos, rainhas imensos, durou poucos meses. O tabuleiro gigante e pedras idem, por algum motivo não se adequaram ao espaço que lhes foi destinado, defronte ao antigo Paço Municipal, na Praça Generoso Marques. Sumiram.Outra experiência que tinha tudo para dar certo foi a das Comunidades Rurbanas, no mais periférico dos bairros de Curitiba, o Campo de Santana. A idéia era aproveitar a tradição rural dos migrantes que chegavam aos magotes do interior do Estado, e dar-lhes moradias e terreno em que pudessem desenvolver um tipo de agricultura familiar. Os módulos tinham limitadas metragens – não mais que um hectare, consta – e os novos moradores acabaram foi mesmo empregando-se nas indústrias e comércio que floresciam na Capital.As rurbanas tiveram vida efêmera.
OS GUETOS RELIGIOSOS CRIAM ÁREAS PROÍBIDAS
Pois quem visita hoje o Campo de Santana com olhos de repórter, ou tentando prestar serviços públicos à sua população (é o caso de órgãos da Prefeitura, sempre presentes ali) , vai se surpreender com uma realidade única no país, acredito.Lá a população, predominantemente de baixa renda, a maioria oriunda de zonas rurais do interior difícil de todos os quadrantes do Estado, transpôs o que de pior existe em alguns modelos europeus de não coexistência pacífica com seus vizinhos. Decalcada na guerra religiosa da Irlanda do Norte, criou “guetos” geográficos em que mora – sem permitir a entrada de ‘infiéis’ – com as chamadas “vilas’ Evangélicas I, II e III , habitadas só por crentes, na maioria de denominações ultraconservadoras e fundamentalistas. As mulheres só usam vestidos longos, os costumes incluem cabelos compridos, ausência de adereços e pinturas, etc.
OS GUETOS RELIGIOSOS – 2
Os guetos religiosos, verdadeiras áreas de exclusão para os “inféis”, não se notabilizam apenas por usos e costumes rigorosos mantidos por crentes e ministros severos,de cunho evangélico. Eles também acabaram gerando a chamada “Vila Católica”. Para os mais fundamentalistas, a “Vila Católica” é mais ou menos a reprodução de Sodoma e Gomorra, uma terra de pecados. Talvez pelas características do catolicismo, que acaba por acolher toda sorte de diversidade em seu universo: fiéis tridentinos (Concílio de Trento), alcoólatras, prostitutas, fiéis renovados de linha carismática (RCC e Canção Nova), senhoras rezadeiras (Apostolado da Oração), benzedeiras em extinção, bailes dentro de salões paroquiais, convivência mais ou menos franca com o espiritismo e outros credos. Um dos maiores fatores de distanciamento é a presença dos santos católicos e seu universo de milagres, bênçãos, promessas.
OS GUETOS RELIGIOSOS – 3
Nos últimos tempos, órgãos públicos que pretenderam realizar eventos comunitários, quase sempre compostos de explanações e exibição de filmes para a comunidade, acabaram por escolher o salão de festas da paróquia católica local. “Nada a ver com religião, assunto que não é de nossa alçada”, explica-me um sanitarista – “nós apenas achamos o único espaço viável e adequado para os nossos eventos”, diz. Foi o que bastou para se entender que em Campo de Santana está-se de alguma forma diante de uma ‘guerra religiosa’ modelo irlandês. Pois os evangélicos negaram-se a comparecer ao serviço público de esclarecimento comunitário.
E o impasse está estabelecido, sugerindo o embrião do que poderá um dia transformar-se em guerra religiosa na periferia de Curitiba.
Por último, mas não menos importante: há uma quarta vila, a dos chamados “bandidos barra pesada”. Lá crente católico ou evangélico não entra. Nem a polícia.
TENENTE ESPERANÇA
O cirurgião geral Edmilson Mario Fabbri conta que teve uma de suas mais agradáveis surpresas dos seus últimos tempos, quando foi abordado no Instituto de Medicina e Cirurgia do Paraná, pela tenente PMEP Esperança Minervini. Ela acabara de assumir novo cargo, e trazia esperança para a área que compreende toda aquela região do campo do Coritiba, Hospital de Clínicas e Instituto de Medicina. Ali é assustador – esse é o termo certo – o número de roubos de carros.
A tenente, em visita espontânea, queria conhecer os problemas daquela região, em termos de segurança e trânsito.
Bom sinal de que as coisas podem estar melhorando, diz Edmilson.
TEATRO ÍIDICHE
Sarah Schulman ainda não anunciou a data de lançamento de seu livro sobre o teatro ídiche na comunidade judaica do Paraná. O trabalho já é bem saudado por quem se interessa pela contribuição dessa etnia à vida cultural do Paraná. Quem tem interesse sobre os passos dos judeus no nosso Estado, a partir do século 19, deve ler o livro de Regina Rotemberg Gouveia e o amplo levantamento sobre os primeiros imigrantes judeus, dos anos 1880s, trabalho de Abraham Fuchs.
DIREITO DO TRABALHO
Da estante paranaense, para os operadores do Direito, recomenda-se o livro “Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho”, de José Affonso Dallegrave Neto e Luciano Coelho, juiz do Trabalho.
Os dois lecionaram juntos na Escola da Associação dos Magistrados Trabalhistas do Paraná.
Luciano foi aprovado, quando do ingresso na magistratura, em primeiro lugar no concurso público.
É filho do professor Luiz Fernando Coelho, que também foi professor do Mestrado e Doutorado de Dallegrave Neto na UFPR.
INSTITUTO HISTÓRICO PEDE SOCORRO
No momento, bom espaço dos meios culturais do Estado é tomado pelas discussões sobre se a Rádio Educativa estava certa ou não em valorizar a música Paranaense. Paulinho Vítola, um músico que fez história no Paraná dos anos 1970/80, ao lado do também cantor e compositor Mário Galera, está no pelourinho, assim com o secretário estadual de Cultura, Paulino Viapiana.
Eles são questionados, por vários grupos musicais locais, sobre o terem decretado o fim da política de valorização dos cantores e autores paranaense, com a queda do jornalista Tupã, da direção da Rádio Educativa. O debate é válido, e simpática a posição dos músicos.
Mas eu e outros paranaenses estamos preocupados mais é com o Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Porque é a parte mais fraca e esquecida de toda a cadeia estadual de preservação da história paranaense.
INSTITUTO HISTÓRICO – 2
O porquê da preocupação, que me reforça o telefonema que acabo de receber do Luiz Geraldo Mazza – “Aroldo, que podemos fazer?”- é este:O Instituto, presidido pelo professor Ernane Straube, está sem recursos para preservar aquilo que é uma dos levantamentos mais preciosos da vida paranaense, toda a história do Paraná dos séculos XVI e XVII colhida e microfilmada. A documentação microfilmada base está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, o mais importante arquivo público do circuito de arquivos portugueses.
O que ocorre é simplesmente isso: a microfilmagem, por estar guardada sem as proteções técnicas necessárias (faltam meios para tanto), dá sinais de que se deteriora. E sinaliza, então, com a deterioração, não se poderá mais imprimir o material fundamental para o conhecimento da história do Paraná.
STRAUBE ANDA DE “HERODES A PILATOS”
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O diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, associação privada sem fins lucrativos e de utilidade pública, professor Ernane Straube, 80 anos, tem andado de “Herodes a Pilatos”, mascateando recursos para salvar a microfilmagem histórica.
Foi à Petrobrás, a órgão culturais estaduais, à iniciativa privada.Ofereceram-lhe, um ou dois dos contatados, apenas migalhas.
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STRAUBE – 2
Mazza é um dos que começam a montar a ação “política” para salvar esse acervo do Instituto: poderá vir em forma de um manifestação, com assinaturas de gente de representação na vida cultural, pública e política do Estado.
O alvo é encaminhar a petição prósalvação a pessoas com sensibilidade para uma causa que pode não render muitos votos.
Mas que definirá os que com quem se pode contar em empreitadas “que realmente contam”, diz Mazza. Como alvos, penso no apoio de deputados como Cida Borghetti, senadora Gelsi Hoffmann, secretário estadual de cultura, presidenta da Fundação Cultural de Curitiba, Maria Cristina Vieira, entre outros, além de presidentes de instituições como FIEPPR e ACP.
Esta coluna é publicada diariamente no jornal Indústria&Comércio.
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