Celebrar é preciso

Praticamente todos os homens, no lobby do Plaza San Rafael, naquela tarde abafada, de 37 graus à sombra, na Porto Alegre dos grandes contrastes cllimáticos, trajam roupa social completa.
São 18 horas de 27 de janeiro de 2011, os tipos humanos variados, moços, meia-idade e idosos vão aparecendo. Descem pelos elevadores, pelas escadas, ou entram pela larga porta principal. Abraçam-se, homens beijam-se, com ´ósculo da paz. As mulheres são muitas, parece que todos se conhecem e se tratam como reverentes parceiros de uma história única.
Posso dizer que não aparentam luto recente. Mas estão marcados, é o que me pareceu, por uma certa intimidade com o Anjo da Morte.
Peço licença e sento no sofá em que o velhinho com ares de personagem de de filmes “cabeça” mostra-se todo confortável. Sentado ao seu lado, uma senhora com o rosto exposto, as marcas do tempo e de dores na fisionomia quem nunca sonhou com cirurgias plásticas.
Ela, soube depois, é esposa do idoso, companheira de uma longa vida, montada pelo casal a partir da Polônia e suas lembranças dos tempos de Segunda Guerra.
Dr.HnC Ben Abraham é o nome do o octogenário (85 anos) com quem a partir dali, e por providenciaisl coincidências, irei partilhar momentos que me marcariam. Feliz encontro.
Ele é um indagador insaciável, a tudo olha, nada lhe passa despercebido, é definidor acurado de tipos humanos e situações. Penso cá com seus botões, “daqui há pouco estarei no centro desse Raio X”.
O velhinho, não frustra minha previsão: quer saber de onde venho, o que faço, aonde irei com ‘roupas solenes’ (terno e gravata, como ele). Olha para a bengala que me auxilia a vencer calçadas e escadas impiedosas e, com ar triunfante escuta a resposta: “Tenho sententa anos”. Assim atendo à uma de suas inquirições diretíssimas.
Pois esse sábio ancião consegue driblar o interlocutor, ao que parece para ganhar tempo para a resposta correta: assim, quase sempre pede que repita as perguntas que lhe faço. É só aparência de surdez, conclui depois.
E ele, sem pestanejar, me dá um banho de água fria em minha vaidade de homem que se considera bem conservado:
- Mas o senhor parece ter 78.
Finjo aborrecimento pela avaliação, ao que ele responde:” Na verdade o senhor não perdeu nada, ganhou oito anos…”
No cartão que me entrega, o Dr.Ben Abraham aparece como presidente da Sherit Hapleitá, a Associação dos Sobreviventes do Nazismo no Brasil.
Foi um “presente” descobri-lo ali, testemunha viva de tristes memórias (a passio, o sofrimento) de um povo que, duas horas e meia depois, iríamos ,150 pessoas, celebrar no auditório do Palácio da Procuradoria de Justiça do Rio Grande do Sul no Dia do Holocausto.
O principal nome da noite, e que chegou hora e meia depois do previsto, vinda de Brasília, foi a presidente Dilma. Aplaudidíssima, na chegada e na saída.
MEU APOIO NA VAN
Estaria exagerando se dissesse que Ben Abraham é simpático. Nem tem motivos para sê-lo. É, isto sim, um homem objetivo, com o braço direito marcado com o número que lhe foi queimado na carne pelos executores do campo de Auschwitz. E como deve ter ficado, o ‘pneuma’, o espírito, dessa testemunha privilegiada (doloroso privilégio) de parte do destino dado pelos nazismo a seus irmãos e minorias (ciganos, homossexuais, eslavos)?
Mas Ben Abraham é também todo disponível, como jornalista que sempre foi, a identificar personagens de seu mundo imediato e a ‘traduzir’ situações para o interlocutor (eu), que ele sabe não pertencer à sua comunidade religiosa e cultural. Assim, cumprimenta, sem se levantar, a um rabino, barba branca, chapéu preto roupas idem.
O religioso mostra-se-lhe simpático. Ele se mantém sisudo. Mal o rabino se afasta, Abraham crava:
- Ele não cumprimentou Mirian, minha mulher, porque eles não dão a mão para mulheres. Não gosto disso…
Fala-me de exageros, de fanatismos de certos grupos judaicos. Poucos, é verdade.
Vou em seu auxílio, parto para a velha explicação dos latinos “in médio status virtus”. Ele concorda, fala uma frase em polonês (suponho), possivelmente completando minha definição do equilíbrio ideal, especialmente em religião:”A virtude está no meio, não nos extremos”.
Antes de partir para a van estacionada na porta do hotel, e assim atender ao pedido do meu anfitrião, professor Manoel Knopfholz, presidente da Federação Israelita do Paraná, também e dos demais do grupo curitibano – vereador Emerson Prado (do movimento Amo Israel), líder do PSDB na Câmara de Curitiba, de sua namorada Patrícia, e do jornalista Leonardo Bessa – observo a reverência com que um jovem o trata.
Alto, sorridente, voz compassada, é Michel Schlesinger, 35, que cumprimenta o casal. Com grandes e justas mesuras. É em tudo um “elétrico”, hiperativo. Esse rabino, soube em seguida, é o substituto, há cinco anos, de outro,o famoso Henry Sobel, na Congregação Israelita Paulista (CIP), a mais importante da Capital paulista.
Nos momentos finais desse primeiro e frutífero encontro com Ben Abraham, ele me lembra que por anos escreveu coluna diária sobre política internacional na Folha da Tarde, que foi um dos mais importantes jornais paulistanos.
O tempo corre, a terra generosa que no Brasil acolheu os fugidos do nazismo, hoje vê estreitar-se esse círculo histórico de sobreviventes do Holocausto. Em São Paulo, Abraham tem ainda registrados 50 deles, homens e mulheres.
Saio, cinco minutos depois, em direção à van, já lotada. Uma jovem cede-me lugar no banco da frente, tenho certa dificuldade em subir na condução porque estou com sobrepeso. Mas eis que uma mão generosa se estende, tentando ajudar-me. É a minúscula dona Mirian, com seus olhos brilhando, tentando fazer aquilo que deve ter feito a vida toda, dar a mão ao próximo. Empertigado, Ben Abraham, na outra ponta do banco, a tudo observa, com o mesmo olhar de avaliador, talvez até pensando: “Veja como eu tinha razão, ele tem mais que 70 anos”.
A LONGA ESPERA
Quando o grupo do San Rafael chega ao Palácio do Ministério Público do Rio Grande do Sul, dirigido pela procuradora Mariano da Rocha, há checagem geral dos nomes, todos passam pela aparelhagem de segurança em busca de armas e assemelhados.
Lá dentro, o toldo imenso compõe o auditório, nos jardins. Calor intenso é compensado por meia dúzia de ventiladores gigantes e farta distribuição de água mineral pela equipe de apoio das viagens presidenciais.
E começa a espera.
Manoel Knophfolz vai-nos introduzindo seus amigos e conhecidos, muitos, da federação anfitriã, do RS, da Confederação Israelita Brasileira… Um deles é o desembargador Joel Paciornik, curitibano, de conhecida família judia paranaense. Simpático, Joel pede cartões de visita. Confunde-me com um médico da Santa Casa de Curitiba. Confusão desfeita, em seguida. Manoel, eufórico, prenuncia que “em breve Joel será ministro do STJ”, cujo presidente, a propósito, judeu, está presente na celebração do Dia do Holocausto de 2011.
Joel lembra, como que desestimulando precipitações, que os gaúchos sabem ocupar bem espaços. Cita, neste caso, a paranaense ministra Denise Arruda, que se aposentou e foi substituída por um gaúcho.
As autoridades vão chegando aos borbotões a partir das 18h30: Kassab, o prefeito de São Paulo, Jacques Wagner, da comunidade judaica, governador da Bahia… Numa cadeira, meio que escondido, acompanhado de um amigo, o escritor Luiz Fernando Veríssimo, muito tímido, é objeto de tietagem explícita. Lá adiante, vejo Horácio Lafer, um braço tucano na celebração, é também um dos nomes mais representativos desses filhos de Abrão, Isaac e Jacó.
Simpaticíssima, despachada, é a professora, doutora em Sociologia, dos quadros da PUCRJ, Sarita Lea Schaffel. Presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro, por ela fica-se sabendo que nos fins de semana, pelo menos mil judeus sobem a serra do Rio, para atender aos flagelados pelas enchentes e deslizamentos de terra.
Apuro o olhar em direção ao meio do auditório, onde há uma clara demarcação de área restrita: dali para a frente, ninguém passa.
A presença ostensiva do pessoal da Segurança da Presidência – são dos poucos homens presentes, além dos da imprensa, que não usam o solidéu (ou quipá) – garante uma movimentação que me chama atenção. Pesquisa daqui, pesquisa dali, descubro que há, de fato (bendita curiosidade jornalística) uma encrenca armada com os homens da segurança.
E por quê? Três senhoras e três homens, percebo, estão há uma hora parlamentando com os seguranças. Alguém atende ao meu pedido e vai escutar o diálogo. Sofre um silencioso “chega para lãs” dos policiais, mas volta com a história: os homens da presidente descobriram que dois dos seis que deveriam acender a vela do imenso menorá (candelabro), simbolizando os seis milhões de trucidados no Holocausto, não estavam registrados por eles.
A solução para o impasse veio pela sábia proposta de um jornalista da comunidade judaica de São Paulo:” Se eles não podem participar do acendimento das velas, não tem mais acendimento das velas…”
E nada mais se discutiu.
DILMA VEIO. ALÍVIO GERAL
Às 20h30 min. os convidados davam alguns sinais de cansaço.O conjunto de instrumentos de corda, que antes apresentara alguns números clássicos , havia parado. Ao que parece, abatido pelo calor que nem os ventiladores diminuíam.
Às 20h3o min, uma hora e meia depois da hora marcada, a presidente chega, acompanhada do governador Tarso Genro, que é filho de mãe judia. Ouço sussuros de alívio, alguns já pareciam frustrados diante da possível ausência presidencial. Palmas fortes saúdam a autoridade maior.
Não vou repetir aqui o que já foi amplamente divulgado. Registro, isto sim, a ênfase com que a presidente, encerrando a solenidade – discurso final -, prestou homenagem ‘as vítimas do Holocausto. Disse que o Brasil repudia ditaduras e quaisquer que tentem viver aqui, no Brasil, a “brutalidade do mal”.
Dilma se dirigiu de forma muito especial a dois amigos que disse ter na comunidade judaica: Cláudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil, e Jarbas Milititsky, presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul.
Habilidosíssima, a Cláudio destinou, no final do discurso com que ele a saudou, um longo abraço, chamando-o “meu querido amigo”. Abraço amplo também para o presidente da Federação Israelita do Rio Grande, Militiotsky, chamado igualmente de amigo, dentre tantos que, disse, cultivou “na minha terra, Porto Alegre”. E por várias vezes, a presidente só se referiu à sua Porto Alegre, com possessivo amor. E aos mineiros, alguma paixão? Nada explicitou.
Se alguém tinha até dúvidas de que Dilma está percorrendo seu próprio caminho, da efetividade forte sem perder uma certa pompa de estadista, a partir da celebração do Holocausto em Porto Alegre não terá mais dúvidas.
Maria do Rosário, a petista campeoníssima de votos para deputada no RS, falou no mesmo diapasão da presidente, centrado no repúdio às ditaduras, torturadores e genocidas. Tudo dentro do contexto exemplar do Holocausto.
O prefeito de Porto Alegre, Fortunatti, também ganhou afagos da presidenta (pertence ao antigo partido de Dilma, o PDT) e devolveu-lhe protesto de confiança.
ANTEPENÚLTIMO MARCO DA NOITE
Se Dilma encerrou sob aplausos longos, fortes, calorosos, a cerimônia, a celebração teve seu ponto ômega no começo, com três rabinos subindo ao palco, um deles lendo a benção da noite . Em seguida, os sobreviventes Ben Abraham e uma senhora, que chegara em cadeira de rodas e fora levada ao palco da celebração nos braços de três homens, foram aceder as primeiras das seis velas. Havia comoção geral. Os judeus deram sentido amplo à celebração, chamando um representante dos movimentos da raça negra, dos homossexuais além de um representante da fé Bahá’i para o acendimento das velas.
Bem Abraham, vejo-o depois, sempre com sua Mirian, com o olhar perdido no horizonte, não parecia distinguir as pessoas ao derredor. Era todo emoção. Havia assistido, como todos nós, o vídeo que fala de como viveriam hoje as crianças, 1,5 milhão delas mortas no Holocausto, se vivos estivessem hoje. Deve ter-se lembrado de tantas que conheceu naqueles dias “terribilis”.
Para mim e os companheiros de meu grupo, a noite se encerrou no jantar oferecido pelo Federação gaúcha no San Rafael. Por ali vi desfilar gente que fui conhecendo, alguns, e revendo, outros, como: Eduardo Wurzmann, Migeul Krigsner, Marcel Hollender, Joel Rechtman, Mauro Terepins, Fernando Lottenberg, Silvia Perlov, Julia Guivant (presidente da Federação de SC)…
Tento, sozinho, fazer meu balanço do que vi e ouvi. Procuro resumir conversas, como a que tive com Miguel Krigsner e o presidente do IBMEC, Eduardo Wurzmann, todos impressionadíssimos com as falas de Dilma. E, grande surpresa, com o diferenciado discurso de Maria do Rosário, a ministra dos Direitos Humanos, que pela vez primeira – garantiu – dirigiu-se à comunidade judaica, e a Dilma como presidente do país numa solenidade.
Concordo com os avaliadores, mais qualificados que eu, particularmente para pesar o quanto de compromisso na luta antissemita estaria embutido na fala presidencial, mesmo que de forma oblíqua.
Quando estávamos nessa satisfatória avaliação, aproxima-se um senhor, conhecido de parte daquele grupo.. Ele diz ver “perigos” e não gostar, “quando tenta-se aproximar o episódio único de Holocausto” de crimes “de ditaduras”. Acha que não há comparações possíveis com a barbárie que eliminou seis milhões de uma população de então existentes 13 milhões de judeus.
Eu, cá com os meus botões, fiquei, isso sim, matutando nas palavras de forte testemunho que ouvira horas antes ditas por Bem Abraham: “O Brasil nos recebeu de braços abertos, nada igual ao Brasil”.
E também em iniciativas como a do vereador de Porto Alegre, que viu transformada em lei sua proposta de as escolas da Capital gaúcha introduzirem noções sobre a chamada “Solução Final” de Hitler. Mesma iniciativa que o vereador Ermerson Prado (PSDB) começa a desenvolver em Curitiba.
Esses são sinais claros de que o esforço de gente como Ben Abraham não foi em vão, nem que a morte de seis milhões – dolorosa para a humanidade – não tenha gerado alguma lição.
Sr Aroldo
Infelismente ,nao posso acreditar em uma ^^mudanca^^^repentina .pois a sra presidente viveu os meus dias com o ex.qdo em visita ao estado de Israel qdo nao aceitou o pedido do governo israeli para visitar um homen importante ao estado judeu……viveu o que deu o estouro em dar o ex presidente de forma unilateral o nascimento do estado da palestina com fronteiras (inexistentes)de 1967…nao contente um terreno para construir a sua embaixada ???!!!!!nao falando de palavras acidas proferidas a miude de seus colaboradores mais de perto……..
Como entao a subita mudanca???????para nos ficarmos desarmados????rsssss esse filme nos ja assistimos infelismente…….
PREZADO AROLDO
Lí com muita atenção este artigo em que você comenta a cerimônia da qual participou em Porto Alegre e gostaria de te cumpprimentar pelo teu texto claro e sensível para uma ocasião que relembra um peródo tão degradante da história da nossa civilização
AceIte meus PARABENS
JAYME GUELMANN disse:
O seu comentário está aguardando moderação.
30/01/2011 às 23:36 PREZADO AROLDO
Lí com muita atenção este artigo em que você comenta a cerimônia da qual participou em Porto Alegre e gostaria de te cumpprimentar pelo teu texto claro e sensível para uma ocasião que relembra um peródo tão degradante da história da nossa civilização
AceIte meus PARABENS